Um novo Projeto de longo prazo se inicia


Sempre que nos perguntam de onde surgiu esta vontade de viver a vida que estamos hoje vivendo necessariamente remeto as nossas influências, e entre elas, além de nossos pais, que nos iniciaram no mundo do campismo, e meu pai especialmente que nos contava suas histórias de sua época de caminhoneiro (Sobre isso ainda quero escrever mais). Porém outra forte influência, que nos fez migrar da pratica do campismo, para longas viagens, foram os livros e blogs (muito comum na época). Neste tempo que somente eu e a Adelaide acampávamos, os pequenos astronautas ainda eram um sonho distante. Por muito anos, e com um equipamento adaptado para o camping Lagoa Mar em Garopaba, passamos deliciosas férias naquele local e colecionamos lindas lembranças de lá. Foram quase 10 anos desta prática. Mas então a vontade de conhecer mais, surge forte, por influência, como falei, de leituras de relatos de outros viajantes e aventureiros. Foi quando começamos a acalentar a ideia de uma longa viagem de moto. O alvo imediato foi Ushuaia. E a motocicleta por ser o que tínhamos de mais viável para a nossa realidade financeira à época. Um dos primeiros livros que embalou estes sonhos de viagem foi "Em Busca de um Sonho", de Heloisa Schürmann. Nela, a matriarca da família Schürman, conhecida também como "Formiga", conta a  sua historia com seu esposo William que abdicam de seus negócios e uma vida segura e estruturada, para viajar pelo mundo a bordo de um veleiro, com três filhos pequenos. Esta história incrível nos chamou tanto a atenção e nos cativou, ao ponto de ali firmarmos o compromisso de um dia também fazer o mesmo. Porém, como viemos de uma "escola" em que a certeza e o planejamento são importantes, ideamos a possibilidade de que, com 45 anos (Adelaide com 44) termos a nossa independência financeira para poder viver uma vida de viagem, ou melhor, uma vida nômade. É claro que outras influências vieram, e nos formaram, como o Chardô Motociclista, Rauen Motoviagem, Antonela e Marcos e outro incrível navegador, Amir Klink. Porém, a Família Schürmann, nos mostrou ser possível viver livre, e mais do que isso, nos mostrou ser possível educar os filhos a distância, e que esse processo não só era possível como poderoso. E em nossos planos e sonhos também estava o de constituir uma família e compartilhar uma parte de nossa vida na companhia dos filhos. Portanto, desde esse despertar para essa vida nômade, os velejadores, em especial esta incrível família, foram grandes inspiradores. Para nós, o mundo náutico ainda era uma possibilidade distante e impraticável. Primeiro pelos custos, segundo pela total ausência de conhecimento, experiência, caminhos e condições financeiras para tanto. Mas o sonho de se independizar financeiramente e vivar na estrada não nos abandonou. Vieram os filhos, primeiro o Artur e simultaneamente a ele, nosso também primeiro motor home, que foi vendido no dia do nascimento do Davi. A condição do Davi, de uma aparente paralisia cerebral,  que exigiu adaptação, cuidados, procedimentos, um sem número de terapias e fisioterapias, nos arrefeceu o plano de um dia vivermos de forma nômade. Mas como a tônica desta fase, exatamente foi a a palavra adaptação, também nós iniciamos um processo de  ressignificação desta nova realidade, nos adaptando a ela. A condição do Davi era irreversível, e não tínhamos o que fazer. O processo de aceitação e ressignificação foi um clique necessário em nossas vidas, pois o sonho era um zunido que insistia em se mostrar inteiro. Um pouco mais tarde, e ainda com o sonho engavetado, abafado, fomos obrigados a nos adaptar ao "novo normal" chamado Pandemia do Covid. Trabalhar em casa, viver isolados, juntos em todos os aspectos de nossa vida, trabalho, escola, família. Neste período, somando o estímulo e as possibilidades que a pandemia nos mostrava, o cansaço da vida corporativa, e um sonho forte que insistia em se mostrar inteiro, uma poderosa conclusão se mostrou em nossas vidas. Primeiro que se não vivêssemos isso logo, não viveríamos mais nesta vida com nossos filhos. Segundo, era sim possível atendermos a nossa realidade, a distância, educando os filhos na estrada e estimulando o Davi com suas fisios e atividades, também na estrada. Ali, uma das decisões mais importantes de nossas vidas foi tomada, e o Projeto "Humus, a essência da Terra" começou a andar olhando para frente. Decisão tomada, providências sendo feitas, transição estabelecida, iniciamos nossa viagem pelo Brasil. Logo no início, outro chamado de vida vem forte em minha direção. Aquele que foi o estimulo inicial de nossas decisões. A possibilidade darmos inicio a um outro plano de longo prazo. O de nos aproximarmos da vida náutica, para quem sabe um dias ou daqui a alguns anos, fazer o processo de migração da vida em um motor home e na estrada, para o veleiro na água. Tomei uma arriscada decisão naqueles dias (ainda no início de nossa viagem), de comprar um veleiro. Um pequeno Oday 23, de 23 pés, o barco que desde que aventei de forma mais séria a possibilidade de um dia migrar para a água, seria o barco a ser adquirido. Comprei a distância, convencido das qualidades do barco, pelo vendedor Binigão, que se mostrou muito sério e correto. Ali dávamos inicio a um projeto, assim como o de viver na estrada, de longo prazo. A ideia agora é ir apreendendo, adquirindo experiência e aos pouco ir assimilando um universo completamente novo, com linguajar especifico e técnica singular, para um dia quem sabe operarmos a migração para um Veleiro. A ideia é até 2033, estar "morando" e explorando o mundo em um veleiro (Hoje falo de um Delta 36, a partir do conhecimento que tenho). Tudo isso está sendo um experiência incrível, estar nos altos dos 51 anos, quando muitos já desistiram de apreender algo novo, me atirar neste universo totalmente diferente.